texto retirado do blog Não compreendo as mulheres
eu adorei a analogia feita pelo autor e por isso resolvi repostar no meu blog,
Lembra-se do céu. Aliás, do que se lembra sempre quando não se
lembra de mais nada é do céu. Talvez pela sua omnipresença nas suas
vidas. Não apenas na dele. Nas suas, ou seja, na dele e na dela. Que
ele e Helena só se amaram sem tecto.
Lembra-se do céu ser uma aguarela pálida como as maçãs do rosto
dela, e de talvez ter sido essa vergonha das cores faciais a encorajálo
a tentar beijá-la pela primeira vez. Avançou com os lábios e ela
recusou, empurrando-o para trás com o seu braço delicado. Depois
manteve-se em silêncio muito tempo, com a mão dela a segurar a
dele, amuada e tão quieta quanto a sua decepção.
O que é que estás a pensar? Perguntou ela como se pudesse pescarlhe
o encolhido pensamento que se afundava num oceano de emoções
imperceptíveis. E também por isso se lembra do céu, onde escondeu
os olhos enquanto limpava uma lágrima invasiva e abanava os ombros
para encobrir a falta de vontade em responder.
Agora está ali, no mesmo pedaço de mundo a que milhões de anos de
evolução do nosso planeta decidiram decorar com areia e mar. Por um
momento acreditou que essa decoração foi feita propositadamente
para esse momento em que tentou beijar Helena há muito tempo
atrás, e que agora aquele espaço não é mais do que uma espécie de
casa abandonada às suas recordações de infância. Tanto que apenas
o céu continua lá, um pouco mais negro e violento, como se as
nuvens também se lembrassem.
.
O amor nunca é só amor, pensa. É o mais forte combate à solidão e
uma dádiva, porque nele abdicamos sempre um pouco de nós. Só que
Mário nunca abdicou dele, depois dessa tentativa frustrada de beijar
Helena em criança. Até ontem, passados quase quarenta anos, e
talvez por isso tenha ido ali contar o sucedido. Não tinha mais
ninguém para o fazer a não ser àquele lugar.
Há muitos anos que apanham o mesmo autocarro para voltar do
emprego a casa. Ele sai sempre uma paragem antes dela. Há muitos
anos que o fazem calados, aniquilando a espaços o silêncio apenas
para falar do tempo ou duma notícia trivial qualquer. Há muitos anos
que se olham pelo canto do olho sem um saber do desejo do outro. Há
muitos anos menos ontem, quando sem perceberem muito bem porquê
a mão dela escorregou para a dele e manteve-se ali, segurando-a
como se segura a cria dum pardal. Ele deixou-se ir e não saiu na
paragem habitual. Saiu apenas na seguinte, onde a tentou beijar
avançando com os lábios sobre os dela e lhes conheceu o sabor.
Depois caminharam até casa e fizeram amor. Tem mais de quarenta
anos, e aprendeu agora que o sexo começa nas mãos que se dão.
eu adorei a analogia feita pelo autor e por isso resolvi repostar no meu blog,
Lembra-se do céu. Aliás, do que se lembra sempre quando não se
lembra de mais nada é do céu. Talvez pela sua omnipresença nas suas
vidas. Não apenas na dele. Nas suas, ou seja, na dele e na dela. Que
ele e Helena só se amaram sem tecto.
Lembra-se do céu ser uma aguarela pálida como as maçãs do rosto
dela, e de talvez ter sido essa vergonha das cores faciais a encorajálo
a tentar beijá-la pela primeira vez. Avançou com os lábios e ela
recusou, empurrando-o para trás com o seu braço delicado. Depois
manteve-se em silêncio muito tempo, com a mão dela a segurar a
dele, amuada e tão quieta quanto a sua decepção.
O que é que estás a pensar? Perguntou ela como se pudesse pescarlhe
o encolhido pensamento que se afundava num oceano de emoções
imperceptíveis. E também por isso se lembra do céu, onde escondeu
os olhos enquanto limpava uma lágrima invasiva e abanava os ombros
para encobrir a falta de vontade em responder.
Agora está ali, no mesmo pedaço de mundo a que milhões de anos de
evolução do nosso planeta decidiram decorar com areia e mar. Por um
momento acreditou que essa decoração foi feita propositadamente
para esse momento em que tentou beijar Helena há muito tempo
atrás, e que agora aquele espaço não é mais do que uma espécie de
casa abandonada às suas recordações de infância. Tanto que apenas
o céu continua lá, um pouco mais negro e violento, como se as
nuvens também se lembrassem.
.
O amor nunca é só amor, pensa. É o mais forte combate à solidão e
uma dádiva, porque nele abdicamos sempre um pouco de nós. Só que
Mário nunca abdicou dele, depois dessa tentativa frustrada de beijar
Helena em criança. Até ontem, passados quase quarenta anos, e
talvez por isso tenha ido ali contar o sucedido. Não tinha mais
ninguém para o fazer a não ser àquele lugar.
Há muitos anos que apanham o mesmo autocarro para voltar do
emprego a casa. Ele sai sempre uma paragem antes dela. Há muitos
anos que o fazem calados, aniquilando a espaços o silêncio apenas
para falar do tempo ou duma notícia trivial qualquer. Há muitos anos
que se olham pelo canto do olho sem um saber do desejo do outro. Há
muitos anos menos ontem, quando sem perceberem muito bem porquê
a mão dela escorregou para a dele e manteve-se ali, segurando-a
como se segura a cria dum pardal. Ele deixou-se ir e não saiu na
paragem habitual. Saiu apenas na seguinte, onde a tentou beijar
avançando com os lábios sobre os dela e lhes conheceu o sabor.
Depois caminharam até casa e fizeram amor. Tem mais de quarenta
anos, e aprendeu agora que o sexo começa nas mãos que se dão.
0 comentários:
Postar um comentário